Conto de Natal

por Ulysses da Silva

Jesuíno pegou o chapéu de couro e foi até a porta. Olhou o céu límpido e caminhou pelos restos da plantação. Mal brotado, o feijão jazia estorricado. Os pés de milho, nem bem saídos do chão ressequido, estavam mortos. Dava dó ver a palha queimada pelo impiedoso sol. Mostrando a negra terra rachada, o fundo do açude formava figuras geométricas. Sua preciosa fonte secara e a vaquinha de leite, ossos à vista, mal parava em pé.

Nascera naquela casa e, durante os longos e sofridos anos lá vividos, nunca sentira seca tão brava. Os vizinhos já haviam se retirado, abandonando à morte o que sobrara do gado, menos Jesuíno, homem teimoso, como o pai. Não era das melhores a terra, mas dela retirava o sustento da família. Homem correto, trabalhador, de pouca religião, acreditava em Deus e só. Ultimamente, porém, até essa crença andava abalada.

– Ele se esqueceu de nós. Deve ter coisas mais importantes pra cuidar.

Voltou para casa, espantou as moscas e jogou na boca um pouco de angu de farinha de mandioca. Precisava fazer algo. Pegou o relógio de bolso pendurado na parede, lembrança do avô, e imaginou quanto lhe dariam por ele na cidade. Com o dinheiro poderia comprar alimento para os filhos e talvez um pano para a mulher. Dentro de casa, a pouca e turva água armazenada escasseava. Se não chovesse nos próximos dias teria de juntar a trouxa e abandonar o sítio. Reuniu a família e disse:

– Amanhã, ainda escuro, vou à cidade, levo este relógio e trago comida. Raimundo e Severino, meus dois mais velhos, vão comigo.

Depois de três léguas de caminhada, os viajantes entraram na cidade poeirenta e apinhada de retirantes. Sem perda de tempo foram ao armazém negociar. O vendeiro examinou o relógio e mostrou pouco interesse:

– É muito velho, enferrujado, precisa de conserto. Dou por ele um litro de leite de cabra, um pote de mel e esta manta. É pegar ou largar.

Jesuíno aceitou, fazer o quê? Pelo menos teriam algo diferente para misturar com a farinha. Além disso, o relógio não servia pra nada mesmo.

Já na rua, a sua atenção foi atraída pela movimentação em direção à pracinha, de onde chegava o som de um cântico de Natal. Curiosidade aguçada, lá foram e, por algum tempo, permaneceram ouvindo o pequeno coral formado por rapazes e moças da região. Cessada a música, um dos membros adiantou-se, segurando um livro, e iniciou pregação religiosa. Ao terminar convidou os presentes a fazer uma prece ao Senhor pedindo chuva. Jesuíno puxou os filhos:

– Vamos pra casa. Ele não tem tempo pra nós.

Já escurecia quando botaram pé na estrada e a caminhada era longa. No céu, salpicando de estrelas quanto mais escuro se tornava, havia uma, mais brilhante, parecendo indicar o caminho.

– É a rabudinha, pai!

Era noite avançada quando chegaram ao Riacho Fundo e ainda faltavam uns dois quilômetros. A rabudinha já se escondera no horizonte e um luar de prata inundava o sertão. Atravessaram o leito seco do rio, subiram o barranco e deram com um casal sentado no chão, ao pé de velha paineira, ao redor de uma fogueirinha. Retirantes com certeza. A mulher segurava uma criança, parecendo recém-nascida. Na fraca claridade, Jesuíno pôde ver a pobreza daquelas pessoas e a falta de agasalho para o bebê. Não teve dúvida. Desembrulhou a manta em suas mãos e enrolou a criança com ela. Raimundo, o filho mais velho, depositou no so lo o litro de leite de cabra e Severino, o mais novo, seguindo-o, lá deixou o pote de mel. Voltando à trilha ainda ouviram:

– Deus lhes pague!

Olhar fixo no céu, Severino viu a lua esconder-se atrás de uma nuvem.

– Veja, pai, nuvens!

O luar já não brilhava e as estrelas se escondiam atrás de uma esperança cada vez maior. Lá no horizonte os relâmpagos riscaram o céu e os viajantes apressaram o passo. Agora corriam e saltavam, pai e filhos, como cabritos. Os primeiros pingos caíram e quando chegaram em casa já estavam ensopados. Espantando a tristeza contida, a mulher e demais crianças dançavam no quintal. Todos se abraçaram e entraram. Foi Maria quem primeiro falou:

– A comida, Jesuíno, vamos festejar! Cadê a comida, homem! Suas mãos estão vazias? Não vão dizer que comeram no caminho.

Grande foi o desapontamento, mas o marido, procurando acalmar os seus, contou o ocorrido:

– Eles eram mais pobres… Você deve ter aí, ainda, um pouco de farinha. Faça um virado, que a fome é brava.

Choveu o resto da noite, ninguém dormiu. Mal clareou o dia, Jesuíno saiu pela porta da cozinha para ver sua fonte. Não conseguiu, porque brotara tanta água, enchendo completamente o açude. Correu à plantação e encontrou os primeiros brotos de feijão. Rejuvenescido, o milharal se reerguera. Sem poder conter as lágrimas, o homem entrou correndo em casa para contar à família o inexplicável milagre e viu Maria segurando um pano dobrado.

– Essa é a manta que eu usei para agasalhar a criança, mulher! Como ela veio parar aqui?

– Encontrei na porta da sala.

– Com certeza, o casal passou e devolveu, – disse Raimundo.

– Não pode ser, – respondeu o pai. Eram retirantes. Deviam seguir rumo à cidade e não ao interior do sertão.

Maria desdobrou a manta e nela viu, gravada, a figura de uma criança deitada em rústico berço, tendo à sua volta um casal e três pessoas, cada uma com um objeto nas mãos.

– Bonita! Parece um presépio!

Jesuíno estranhou:

– Não pode ser a comprada na cidade. Aquela não tinha nenhum desenho. Será que…

Ele pegou a manta e saiu em direção ao Riacho Fundo em desabalada carreira.

– Aonde você vai, homem?

– Atrás daquele casal!

Resfolegando, lá foi Jesuíno. Ao chegar à beira do ribeirão, agora cheio, parou. A correnteza era muito forte para atravessar. Procurou, ao pé da paineira, sinais da presença do estranho casal e nada encontrou, nem mesmo os restos da fogueirinha vista na véspera. Já ia retornando, meio desconcertado, quando levantou os olhos e viu a árvore, florida como nunca. Uma luz acendeu em sua cabeça de sertanejo. Tirou o chapéu, dobrou os joelhos e por instantes manteve-se imóvel, agradecendo a Deus o milagre da chuva. Só não entendia como aqueles desenhos foram parar na manta.

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